SOBRE ODORES E SABORES

SOBRE ODORES E SABORES

Ainda me lembro da sensação esquisita ao tomar o primeiro gole de suco de laranja natural após voltar de um ano de intercambio fora do Brasil. Eca! Que gosto horrível! O que colocaram nesse suco, eu pensei?

Colocaram laranjas, apenas laranjas. Um ano! Um ano bebendo suco de laranja “fake” nos EUA destruíram meu paladar de 16 anos, onde suco natural era a única coisa que eu conhecia (não cresci na época dos sucos de caixinhas, e na casa dos meus pais refrigerante era coisa rara, suco artificial muito menos!).

Esse simples exemplo nos dá uma pequena noção do poder que a “artificialização” das coisas tem sobre nós e o tanto que estamos nos artificializando.

Não é apenas nosso paladar que sofre. O olfato é outro sentido que vem sendo bastante bombardeado pela indústria ao longo das últimas décadas. Falo isso com propriedade porque sou daquelas que sente cheiro de tudo… Aliás os cheiros aguçam minha memória, lembro imediatamente de determinada época ou pessoa. E é claro que eu prefiro sempre sentir os cheiros bons que trazem boas memórias (risos!). Mas nesta jornada lixo zero, assim como os sabores, tenho experimentado novos odores, são cheiros mais naturais, dos óleos essenciais, dos xampus em barra, os sabonetes feitos por alguém que eu conheci num evento, manteigas hidratantes de manga, abacate… tudo tão novo e ao mesmo tempo nem tão novo assim!

A questão é que eu me percebi tão intoxicada pelos cheiros artificiais que demorei a me habituar com os naturais. Logo que iniciamos o processo, pensei que não sobreviveria sem o amaciante de roupas! Eu não apenas usava o amaciante, eu “detonava” no amaciante (assim como detonava com as minhas roupas, com a máquina de lavar e com os rios e mares para onde eles eram enviados quase que diariamente), uma vez que ele tem ingredientes tão nocivos pra todo mundo! Isso é tão real que hoje, quando abraço alguém, ou alguma roupa nossa é lavada por um amigo ou familiar (por qualquer motivo que seja) o cheiro que chega pra mim é superforte! Eu já cheguei a, literalmente, espirrar. Quem diria!?

Esses dias meu irmão cheirou o cabelo da Nina e disse: “Nossa vocês têm um cheiro mesmo de casa sem lixo… Eu não sei se é bom ou se é ruim? É estranho!”

Aos poucos, sem percebermos nos afastamos de quem realmente somos. Do cheiro da grama molhada, da beleza das montanhas no horizonte, o toque da areia que amacia os nossos pés, do doce sabor da laranja que deixou de ser tão doce assim.

O que dizer então dos maus odores? Do nosso lixo de cada dia que insistimos em terceirizar, como se o outro tivesse que dar conta da nossa responsabilidade! Não quero mais isso pra mim, nem para os meus filhos. É bom? Não é! Mas é nosso e, cada um precisa aprender a dar conta do que é seu, sendo bom ou ruim.

O cheiro do lixão que fica a quilômetros de distância da sua casa, ou mesmo o cheiro do caminhão do lixo que fazemos questão de não sentir, é nosso. É de todos nós que habitamos este planeta. Perto ou longe ele nos afeta. Se faz mal para um animal ou uma pessoa, para os rios de onde bebemos a água, ele continua “aqui”, fedendo de alguma forma.

Aqui em casa nosso cheiro tem se tornado cada vez mais natural. Ainda que nossos sentidos sejam diariamente bombardeados pelas coisas mais coloridas, por sons estridentes, pelas texturas mais macias que se possa tocar, os cheiros absurdamente cheirosos que alguém possa sentir, ou os sabores mais deliciosos que um ser humano já provou…

Será?

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